quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

PAPA FRANCISCO - UM SER DE LUZ

Papa Francisco, rabino Abraham Skorka e muçulmano Omar Abboudd

Tenho como filosofia que a vida deve ser trilhada dentro de princípios como a justiça, a igualdade, a solidariedade e o respeito ao direito dos outros. É incrível que algumas dessas palavras sejam tão massacradas por nossos atos, por nossas indiferenças, por nosso cuidado exclusivo com nosso mundinho particular. Defende-se a igualdade desde que não atinja nossos interesses. 

Quando nos deparamos com pessoas que traduzem sua vida pelo respeito ao próximo, por pautar sua existência na busca da isonomia entre as pessoas; pelo combate à discriminação; pelo fim das injustiças independente de cor, credo, patrimônio, orientação sexual, sexo, nacionalidade, etc; achamos que essas personalidades são santos ou até divinos. Podem até ser simbolicamente definidas por estes termos, mas para mim são simplesmente especiais, espíritos de luz.

Rever os passos de Abraham Lincoln, Gandhi, Martin Luther King, Nelson Mandela, Chico Xavier, Madre Teresa, entre tantos outros, demonstra a compreensão firme de sua caminhada, de suas decisões, de seu destino. Há um desprendimento de questões menores como o poder pelo poder, da riqueza, dos prazeres terrenos; dirimidas pela busca de seus ideais, de seus sonhos. E sonhos não voltados para o engrandecimento pessoal, e sim para a construção de benefícios coletivos.

Esta introdução é para ressaltar a surpresa agradabilíssima que é a chegada ao papado de Francisco. O argentino tem surpreendido como suas posições claras, transparentes, sensíveis. Entretanto, não são posições inéditas. O Papa Francisco está defendendo apenas o óbvio, o natural, o dever ser de uma sociedade evoluída e moderna.

Como pode um continente inteiro se esgueirar de atender humanitariamente os seus vizinhos? Como se admite que a Europa e o mundo abandonem seus irmãos africanos atolados em guerras, doenças e governos corruptos? Ah, eu não tenho nada com isso. Esta é a postura dos governantes e de seus países. Francisco, em sua primeira viagem, foi a Lampedusa, ilha entre a África e a Itália, para clamar por ajuda humanitária aos refugiados. Fez isto consciente do seu papel para ao menos tocar o duro coração das pessoas.

Francisco defende a diversidade religiosa. Faz a defesa de que os integrantes das mais diversas religiões tenham o direito de se manifestar, claro que respeitando também o direito dos outros se manifestarem. "Assistimos na História, tragédias do pensamento único", afirmou.  “Como seria possível a criação de relacionamentos reais, a construção de uma sociedade que seja uma verdadeira comunidade, impondo que cada um deixe de lado o que considera ser uma parte íntima do seu ser?”, expõe didaticamente. Sua viagem à "Terra Santa" foi acompanhada por um rabino e um muçulmano, nada mais simbólico.

As surpresas não param por aí. 

Papa Francisco tem tomado medidas enérgicas contra o abuso de crianças e adolescentes por sacerdotes, antes fato público e notório, mas esquecido debaixo do tapete. 

Exigiu auditoria nas contas do Vaticano. Critica cotidianamente a corrupção. Um vida com base na corrupção é putrefação envernizada, afirmou. 

Listou doenças da Cúria Romana, órgão administrativo da Santa Sé, citando entre elas: “Alzheimer espiritual”, o “terrorismo de fofocas”, “esquizofrenia existencial”, “exibicionismo mundano”, “narcisismo falso” e “rivalidades e vanglória”. A religião não pode estar a serviço destas patologias.

Em relação aos homossexuais, outro tema arquivado, disse que se uma pessoa é gay e procura Jesus, e tem boa vontade, "quem sou eu para julgá-la?", afirmou.   Contrário à discriminação, defende sua integração à sociedade e sua irmandade.

Conseguiu o encontro de representantes de Israel e Palestina na busca pela paz. Embora não tenha acontecido avanços, Francisco dá o sinal de que não podemos finar inertes em nossas posições. A paz configura-se como uma de suas metas cotidianas.

A aproximação entre Estados Unidos e Cuba teve o seu apoio e sua decisiva ação. O que antes era considerado impossível de acontecer em curto espaço de tempo, caiu como uma bomba surpresa na diplomacia mundial. E Francisco teve papel preponderante.

"Nenhuma família sem casa. Nenhum camponês sem terra. Nenhum trabalhador sem direitos. Nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho dá." Esta frase do Papa Francisco demonstra a firmeza de suas posições na defesa da redução das desigualdades mundiais. Aos possíveis críticos, explicita: "estar ao lado dos pobres é evangelho, não comunismo".

Em sua declaração mais recente enfatizou que a teoria da origem da espécies e do big bang não contrariam a intervenção criadora divina, "O início do mundo não é trabalho do caos, que deve sua origem a outra coisa, mas deriva diretamente de um princípio supremo, que cria a partir do amor". Nada mais verdadeiro...

Espero que o Papa Francisco tenha vitalidade e energia suficiente para levar mensagens de uma vida nova a este mundo tão carente de ética, humanidade e solidariedade. Sem dúvida trata-se da personalidade mais importante do ano de 2014. Que os seus passos levem os corações e mentes de nosso planeta a outras estradas entremeadas de compaixão, justiça e amor.