segunda-feira, 3 de setembro de 2012

AS ELEIÇÕES EM QUIXADÁ E O SENHOR DAS HORAS: O TEMPO

Eram fins de 2008. O PT havia vencido as recentes eleições municipais. O novo prefeito trata-se de um quadro recente na política quixadaense. Médico, de bom trato, angariou apoios e tornou-se com o apoio incondicional do cacique do partido, o prefeito eleito da "Terra dos Monólitos". Eram momentos de celebração, diversas inaugurações eram conduzidas pelo então prefeito Ilário Marques em sua despedida do cargo. Foi nessse momento que aconteceu a inauguração da nova prefeitura, de diversos calçamentos, da chamada "nova feira dos animais". Nos atos de inauguração, puxados por bandas de forró, o então prefeito era abraçado, elogiado pelos oradores que o antecediam, festejado pelos presentes por aplausos e manifestações de apoio. Em uma dessas inaugurações, Ilário pediu a banda do forrozeiro Dedim Gouveia que tocasse o "forró do Zé Priquito", em uma clara alusão ao candidato adversário derrotado nas urnas municipais. Não havia humildade em sua vitória. Afinal, a maioria da população estava do lado dele. Tinha derrotado mais uma vez seus adversários e agora alçaria vôos maiores. Quem sabe o Governo do Estado ou o Senado Federal dizia a seus aliados mais próximos.

O tempo passou. Quatro anos se passaram e este senhor tempo mudou o cenário que parecia favorável naquele momento. Alguns estudiosos da política dizem que há eleições em que se perde nas urnas, mas na verdade trata-se de uma vitória. Há outras em que se ganha, mas na realidade, trata-se de uma derrota ou o prenúncio dela. Acredito que tratou-se de uma vitória do faz-de-conta. Neste momento iniciou-se um processo de desgaste permanente do então poderoso e inatingível coronel quixadaense.

Uma sucessão de erros e elocubrações afloraram. O novo prefeito tomou posse em janeiro de 2009, mas não mandava. Os principais cargos e decisões administrativas ficavam a cargo do ex que não era ex e sim o comandante de tudo. Assim fazia-se necessário, chegou a afirmar em diversos locais o atual prefeito. "Ilário mandará por dois anos e depois, eu já com experiência irei tocar a administração". Triste melodia que só teve um prejudicado: o Quixadá. Nestes quatro últimos anos o que aconteceu foi uma maratona de maldades com a população. Nada funcionou a contento na administração municipal, deixando atônitos quem ainda desejava fazer alguma coisa. A interferência de Ilário foi tamanha que ele chegou a se autonomear para a procuradoria, além de praticamente todo o secretariado. Depois de certo tempo, vendo o desgaste acontecer de forma geral e gritante, quis pular fora do barco. Colocou a culpa no novo prefeito. "Ele não quis seguir os meus conselhos", chegou a dizer em vários momentos. Entretanto, a população entendeu o acontecido. O desgaste da catastrófica gestão não atingiu apenas Rômulo. Ilário recebeu como pagamento justo a sina de ter inviabilizado a administração de seu sucessor.

Agora podemos atribuir a perda de popularidade de Ilário somente à sua nefasta influência nesta última gestão? Não, de forma alguma. Há de se fazer uma avaliação mais ampla da situação. Confesso que tenho orgulho de ter sido secretário municipal de seu primeiro governo. Era uma equipe de peso com Zé Linhares da Páscoa, Professor Telmo, Dr. Humberto Junior, Dr. Luiz Odorico, Dra. Ondina Canuto, entre tantos outros. Esta equipe entretanto, não foi repetida nas demais administrações. Sem criticar ninguém, não dá para comparar o corpo diretivo das administrações seguintes. Aconteceu uma queda no nível do secretariado e a repetição do mesmo grupo nos principais cargos. Não houve uma oxigenação nas lideranças. Quem fosse fiel seguidor e de forma nenhuma questionador seria aproveitado. Esta postura afastou alguns a princípio. Depois mais e mais foram se afastando. Mais ainda é pouco para explicar.

Ao avaliarmos as gestões municipais do PT de Ilário constata-se o descompasso financeiro em todas elas. Não aconteceu um planejamento adequado e eficiente em nenhuma. Não por conta da equipe dos servidores da secretaria, mas pela própria forma de administrar do prefeito. Não se preocupava em pagar aos fornecedores. Converse com algum dos comerciantes da cidade ou mesmo de fora dela que se atreveu a vender para a administração de Quixadá. E vocês vão entender a via crucis que eles tiveram para receber o que lhes era devido. Receber da prefeitura sempre foi uma tormenta nas gestões de Ilário. E ele perdeu muitos apoios por isso também. Considero um bom administrador quem organiza a priori a parte financeira e ele sempre foi péssimo nisso.

A tônica do apego ao poder por cima de qualquer coisa, esta sim, acho que configura-se o principal motivo para o atual desgaste. Para atingir seus objetivos nunca se furtou de passar por cima de quem que fosse. Princípios éticos, se os tinha mandou enterrar bem fundo. E nesta pisada atraiu desafetos, muitos desafetos. Sua fama de perseguidor ultrapassa fronteiras. É incrível como diversos antigos apoiadores falam com tanta raiva dele. Imaginam e planejam sua derrota como uma vitória da desforra. De fiéis seguidores a inimigos eternos.

Também repetiu os erros dos políticos que ele tanto dizia combater. Como bom arauto da oligarquia lançou o nome da esposa para deputada, mesmo ela avessa à política. E assim caminhou o antigo idealista, que nada mais apenas configura-se como um político tradicional, dos quais ele dizia-se diferenciar. Já até planejava incursões com seu filho na política. Se o senhor do tempo lhe continuasse favorável poderia até ser agora. Mas não foi assim que aconteceu.

Mais recentemente denúncias e denúncias aconteceram envolvendo seu nome. Algumas sem muita credibilidade, outras que deixaram seus apoiadores a pensar: será que estamos enganados com o Ilário? E isto acabou atingindo um dos princípios mais firmes da liderança: credibilidade. Quando se perde a credibilidade com seu povo, torna-se muito dificil dar a volta por cima. Neste momento tem enfrentado muitos percalços. Muitas portas lhe foram fechadas. Ninguém aguenta mais falsos discursos de desenvolvimento se o que se deseja realmente é apenas durmir na sala do poder municipal.

Este é o quadro da política quixadaense. Vi nascer uma liderança em 1992 com a juventude tomando as ruas para elegê-lo prefeito, acreditando em algo diferente para sua cidade. Agora em 2012, vejo a mesma juventude lotando comícios e reuniões, vestida de verde, lutando para afastá-lo e construir algo também diferente.

O tempo faz girar a história. E a história julgará os bons e os maus governantes.