domingo, 1 de novembro de 2009

A MORTE DA JUSTIÇA POR JOSÉ SARAMAGO


Esta história escrita pelo literato José Saramago é uma crítica atualíssima da morosidade da justiça, em qualquer tempo e lugar. Um primor. Aproveitem.


Estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e cuidados, quando de súbito se ouviu soar o sino da Igreja.

Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século XVI) os sinos tocavam várias vezes ao longo do dia e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza, porém, aquele sino dobrava melancolicamente a finados e isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que alguém na aldeia se encontrasse em vias de passamento.

Saíram, portanto, as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, deixaram os homens a lavoura e os mesteres e, em pouco tempo, estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera que lhes dissessem a quem deveriam chorar.

O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta abria-se e um camponês aparecia no limiar. Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto:

- 'O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino', foi a resposta do camponês.

'Mas então não morreu ninguém?', tomaram os vizinhos, e o camponês respondeu:

- 'Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta'.

Que acontecera? Acontecera que o ganancioso senhor do lugar (algum conde ou marquês sem escrúpulos) andava desde há tempos a mudar de sítio os marcos das estremas de suas terras, metendo-se para dentro da pequena parcela do camponês, mais e mais reduzida a cada avançada. O lesado tinha começado por protestar e reclamar, depois implorou compaixão e, finalmente, resolveu queixar-se às autoridades e acolher-se à proteção da justiça. Tudo sem resultado, a expoliação continuou. Então, desesperado, decidiu anunciar urbi et orbi (uma aldeia tem exacto tamanho do mundo para quem sempre nela viveu) a morte da Justiça...