terça-feira, 15 de setembro de 2009

DANÇAR AO SOM DE LUIZ GONZAGA É BOM DEMAIS


Já fazem mais de dez anos da morte de um dos maiores símbolos da música brasileira: Luiz Gonzaga. Sua voz inconfundível cantando "Asa Branca" é como se estivesse entoando o hino do Nordeste, tal é sua simbologia para nós nordestinos.
Não tive muitas oportunidades de ver Luiz Gonzaga em ação. Quando esteve em Quixadá, na última vez na AABEC, eu estava viajando e perdi de ver o "rei do baião". Depois não voltou mais à terra dos monólitos. Mas surgiu uma oportunidade de dançar ao som de Luiz Gonzaga. Eu era ainda bem jovem, nem dirigia. Atento aos eventos em Fortaleza, vi que Luiz Gonzaga iria se apresentar na Babilônia (é o novo), boate de sucesso naquele período em Fortaleza. Eram os meses de férias e eu estava pssando uns dias pela capital. Não teve jeito, fiz um articulação com meus irmãos e fomos os três para curtir o forró do Gonzagão: Sérgio. Ilana e eu.
Chegamos cedo, pegamos uma mesa estratégica, tomamos umas cervejas. Pouco tempo depois era anunciado o início do show de Luiz Gonzaga. Ele entrou no palco. Demonstrava cansaço, já dos anos vividos. Sentou em um banquinho e soltou os dedos na sanfona:

" Quando oiei a terra ardendo
Qual a fogueira de São João
Eu preguntei a Deus do céu,ai
Por que tamanha judiação"...

Começou logo pelo hino do Nordeste. Não me contive, dancei pelo salão com minha irmã bem pertinho do palco, vendo de perto aquele ícone vivo da cultura brasileira.
E ele soltava a voz:

"O caboclo Marcolino,
Tinha oito boi zebú,
Uma casa com varanda,
Dando pro Norte e pro Sul,
Seu paió tava cheinho,
De feijão e de andú,
Sem contar com mais uns cobre,
Lá no fundo baú,
Marcolino dava tudo,
Por um cheiro de xandú
Ai, Xanduzinha,
Xanduzinha minha flô,
Como foi que você deixou,
Tanta riqueza pelo meu amô ?
Ai, Xanduzinha,
Xanduzinha meu xodó,
Eu sou pobre mais você sabe,
Que meu amô,
Vale mais que ouro em pó"

Foi uma inesquecível. Dancei praticamente o show todo. Com minha irmã, com umas meninas que conheci. "Seu Luiz Gonzaga" colocou todo mundo presente para dançar. Afinal, não era todo dia que podíamos dançar ao som de Luiz Gonzaga, o rei do baião, do forró, do xote... Já perto das duas horas de show, anunciou sua despedida, não sem antes tocar mais uma duas saideiras e falar de sua trajetória de vida. Falou dos amores, das músicas, das dificuldades, da velhice.... Foi realmente um momento histórico para mim. Não pude tirar fotos, naquele tempo não tinha essas maravilhosas máquinas digitais que a tudo registram, inclusive o que não deve. Mas ficou na minha memória, muito bem guardado. A última música(Súplica Cearense) foi assim:

"Oh! Deus, perdoe este pobre coitado
que de joelhos rezou um bocado
Pedindo pra chuva cair sem parar
Oh! Deus, será que o senhor se zangou
E só por isso o sol arretirou
Fazendo cair toda a chuva que há
Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho
Pedir pra chover, mas chover de mansinho
Pra ver se nascia uma planta no chão
Oh! Deus, se eu não rezei direito o Senhor me perdoe,
Eu acho que a culpa foi
Desse pobre que nem sabe fazer oração
Meu Deus, perdoe eu encher os meus olhos de água
E ter-lhe pedido cheinho de mágoa
Pro sol inclemente se arretirar
Desculpe eu pedir a toda hora pra chegar o inverno
Desculpe eu pedir para acabar com o inferno
Que sempre queimou o meu Ceará".