sábado, 21 de março de 2009

A MOSCA AZUL

Acho que certas pessoas que ocupam posição de proeminência deveriam ler este interessante texto do consultor Roberto Matoso. No momento em que atualmente vivencio, recomendo aos "amantes do poder e da riqueza" citados no comentário anterior. Aos algozes da nova inquisição, para uma reflexão.

A MOSCA AZUL
Roberto Matoso
Consultor, economista e empresário

Ouvimos com freqüência expressões como “ele foi mordido pela mosca azul” ou “cuidado com a mosca azul”, curiosamente em uma época na qual um mosquito pode influenciar na sucessão presidencial do País.

Mas, afinal, o que quer dizer a expressão “mosca azul”? Duas características aparecem associadas ao termo: o apego ao poder e a vaidade. É como que ser “mordido pela mosca azul” levasse a um estado de embriaguez, de alucinação, em que a “vítima” perde a noção da realidade.

Machado de Assis possui um poema com o título de “A Mosca Azul” que versa sobre uma mosca com “asas de ouro e granada”, “refulgindo ao clarão do sol”. O próprio inseto dizia: “Eu sou a vida, eu sou a flor, das graças, o padrão da eterna meninice, e mais a glória, e mais o amor”. Ainda no poema, um pária (homem da mais baixa classe do sistema de castas da Índia) observando a beleza da referida mosca, ficou “deslembrado de tudo, sem comparar, nem refletir”. Passou a ver na mosca o próprio rosto e a sonhar com poder e riqueza. Julgando estar diante de um tesouro, aprisionou a mosca, levou-a para casa e dissecou-a, ocasionando a sua morte. No final, o poema diz que o pária ensandeceu e “que não sabe como perdeu a mosca azul”. O poema nos mostra que o homem viu na mosca o seu reflexo, projetando sua própria vaidade. O apego às posições, a utilização da estrutura do poder, e o autoritarismo das “castas”, não se restringem somente aos ambientes políticos. Está presente em inúmeras empresas e instituições. Há uma distorção quando o líder busca o cargo pelo cargo, ou se apega a ele como quem não consegue se ver sem ocupar uma posição similar ou superior. Julga-se senhor das vontades e das verdades. É preciso sabedoria para perceber que a liderança é resultado da confiança de um coletivo de pares (e não de párias). Precisamos ter noção que um líder é produto de um grupo de pessoas que possui uma visão comum, e que o cargo que ele ocupa é consentido por este mesmo grupo. Ou seja, o cargo não é do líder, é, paradoxalmente, dos liderados. Confúcio (551-479 a.C.) nos alerta para a transitoriedade do poder e da riqueza quando nos diz: “se tiverdes acesso à fama, comporta-te como se estivesse a receber um hóspede.” O líder precisa estar atento para não passar a “achar feio o que não é espelho”, como canta Caetano Veloso. Para impedir tal “tentação”, é preciso deixar constantemente os canais abertos, como quem abre sua própria janela para evitar o “mofo” e a “proliferação de larvas”.

A mosca azul não morde ninguém. Podemos ver na mosca azul as nossas próprias vaidades e, perdendo a noção de realidade, passamos a acreditar que somos donos dos cargos. Mas como floresce em um líder a síndrome da “mosca azul”?

Alguns pontos são comuns:

1. afastar-se do coletivo e da convivência com o contraditório;
2. cercar-se de um grupo restrito que diz o que o líder quer ouvir e não o que ele precisa ouvir;
3. perder a noção de que a hora da partida marca muito mais do que o triunfo da chegada;
4. esquecer que todo poder é efêmero, como disse Rubens Ricúpero.
Nesta virada de século, precisamos desenvolver líderes que tenham mais consistência que aparência, mais fundamentos que argumentos e que, com humildade e desapego, não deixem florescer em si a mosca azul.