sábado, 9 de maio de 2009

FAZENDA "NÃO ME DEIXES" - QUIXADÁ (CE)






Ponto de referência da escritora Rachel de Queiroz: casa grande, arejada, rodeada de plantas tropicais, reserva de pássaros e com jeito de moradia dos sertanejos. No Sertão Central do Ceará, em nossa Quixadá está a fazenda Não Me Deixes, herança do pai Daniel. Um último desejo seu era ser cremada e suas cinzas serem levadas pelo vento na sua fazenda querida.
A vista do quarto dá para o açude, o pé de algaroba, o juazeiro, o pau d'arco, os mandacarus. É uma janela baixa que a gente até pode sentar no parapeito e ficar saboreando o vento batendo no rosto, uma raridade naquela região árida do Sertão Central. De vez em quando, o canto de um pássaro corta o silêncio da casa grande.
A história da Não Me Deixes começou no século passado. Nos idos de 1870, o tio-avô de Rachel, fazendeiro e proprietário de 18 áreas, deu de herança a terra para um primo da escritora que preferiu vendê-la para se aventurar na extração da borracha, no Amazonas. Quando o tio soube, conseguiu recuperar a fazenda e devolveu para o herdeiro que voltou pobre e doente. Mas o fez prometer que não sairia mais do local e o batizaria de Não Me Deixes. Quando o proprietário da fazenda morreu não tinha filhos e a terra voltou para as mãos do avô de Rachel que a deu de herança ao pai da escritora, Daniel de Queiroz. Rachel e o marido Oyama construíram a casa entre os 900 hectares de terra, em 1955. Tijolos, portas e janelas, além dos móveis, foram materiais retirados da própria fazenda. Atualmente um terço da fazenda (300 hectares) é área de reserva do Ibama. "Mas, muito antes de se falar em ecologia, Rachel e o marido já preservavam a fazenda'', diz a irmã Maria Luíza calculando que os cuidados com a área de caatinga, com a fauna e flora tropicais da região já vem de 45 anos atrás.
A fazenda Não Me Deixes é uma reserva particular do Patrimônio Natural há treze anos. O reconhecimento foi autorizado pelo ministro do Meio Ambiente, José Sarney filho, pelo decreto 1922 de cinco de junho de 1996. O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) classifica a área como "uma reserva representativa de ecossistemas da Caatinga, fauna e floras tropicais da Região e relevante beleza cênica''.
No diploma dependurado na parede da sala de visitas da casa da fazenda, o aviso: ``Foi gravado em cartório com perpetuidade para proteger a biodiversidade, em benefício das futuras gerações".
Design sertanejo. Os sete potes encostados nas paredes de frente e ao lado do fogão a lenha. Nas prateleiras de madeira, as panelas de barro, as quartinhas, as canecas de alumínio dependuradas nos tornos. Fixados no piso de cimento, um tronco de árvore para cortar a carne e um moedor de carne e de milho. Essa é a cozinha da casa grande, onde de "moderno'' mesmo, só o pequeno fogão a gás de duas bocas usado apenas nas emergências ou para esquentar uma água. Na ampla dispensa, dependurada no teto, uma tábua para guardar o queijo, feito na prensa, também construída com madeira da fazenda. Nas prateleiras, fileiras de garrafas de cajuína, bebida preferida da escritora. O depósito de madeira para guardar a farinha e o armário embutido que esconde o material de limpeza complementam a dispensa. Separando a cozinha do banheiro, uma sala serve de ambiente para a prensa, a máquina de desnatar leite, a antiga máquina de costura da marca Singer e uma mesa com banquinhos de madeira. No banheiro, apenas o chuveiro elétrico destoa do estilo antigo, até com uma banheira feita de cimento revestida de azulejo. Num pequeno quarto, com piso de tijolo e janelas que dão para o quintal, grandes baús guardam peças de cama e mesa, alguns marcados com o nome da fazenda.

Este texto é de autoria da jornalista Rita Célia Faheina, com algumas adaptações minhas para atualizar o texto.
obs: As fotos são de Fábio Barros(duas primeiras) e Alex Uchoa(se eu fosse vereador ainda, daria uma Medalha pela sua arte em retratar de forma sublime nosso Quixadá.